Empresas esbarram em falta de gerentes na América Latina – Valor Econômico

Empresas esbarram em falta de gerentes na América Latina

Uma escassez de profissionais de alto escalão tem se tornado um obstáculo para as empresas que tentam entrar ou se expandir nos países que mais crescem na América Latina, dizem headhunters e executivos de vários setores.

A alta do câmbio e o boom econômico estão atraindo executivos para trabalhar na região, mas em número ainda insuficiente para o crescente apetite por diretores.

Algumas empresas já tiveram de adiar projetos e aumentar investimento em treinamento interno para executivos, sem falar no gasto com salários mais altos e incentivos para evitar que mudem de emprego, segundo profissionais de recursos humanos.

Analistas sênior e administradores de carteira, por exemplo, têm sido difíceis de achar no Brasil, diz Paulo Silvestri, sócio da Rio Bravo Investimentos, a empresa paulista de investimento em participações que tem negócios em infraestrutura, logística e outros setores. Ele esteve em Nova York em fevereiro para, entre outras coisas, reunir-se com brasileiros recém-formados em cursos de MBA americanos que estavam considerando voltar para o Brasil.

Geralmente, profissionais como esses partiriam para uma carreira internacional logo depois de um MBA no estrangeiro, mas essa tendência se inverteu, diz Silvestri. Segundo ele, pessoas como as que ele entrevistou cuja possível contratação ainda não estava confirmada são cada vez mais procuradas e estão em falta, apesar de a remuneração na moeda local parecer mais atraente quando convertida a dólares ou euros.

O real subiu cerca de 25% em relação ao dólar nos últimos quatro anos, enquanto o peso chileno subiu 11%, o sol peruano 18% e o peso colombiano, 19%, só para citar alguns exemplos de uma tendência que se espalha pela América Latina.

Luciano Siani, diretor global de recursos humanos da Vale S.A., uma das maiores mineradoras do mundo, diz que com a alta do real ficou mais fácil oferecer um salário anual de US$ 100.000 a US$ 120.000 (algo como R$ 15.000 mensais) que, segundo ele, é atraente para profissionais que acabam de sair de um MBA de qualidade internacional. A Vale, que recruta em campus de faculdades de alto nível nos Estados Unidos e outros países, tem conseguido atrair talentos para trabalhar no Brasil e outros países latino-americanos em que opera também graças ao bom momento econômico da região, diz ele.

Contudo, Siani diz que “há uma escassez de prontidão para diretores de projeto sêniores” para manter o passo com a expansão da companhia, e isso tem levado a Vale a promover executivos mais jovens para esse tipo de posição. “Para liderar um projeto de US$ 3 bilhões, você precisaria de um executivo de seus 40 a 45 anos que já tivesse trabalhado em dois ou três projetos grandes”, diz, mas agora a Vale tem cada vez mais promovido pessoas na casa dos 35 e está intensificando o treinamento interno para que possam encarar mais cedo um cargo mais alto.

Como parte desse esforço, diz Siani, a Vale está contratando este ano 40 treinandos de gestão, com até 3 anos de pós-graduação MBA ou equivalente. Eles passarão por um programa de treinamento de 18 meses em seu primeiro passo a caminho de liderar um projeto bilionário na Vale, diz Siani, acrescentando que o grupo deste ano é o dobro do de 2011 e inclui 29 brasileiros eil estrangeiros que serão alocados nas operações da Vale ao redor do mundo.

Um desses trainees, Emil Ivanov, mudou-se da Holanda para o Rio em 2008, recrutado pela Vale. Ele diz que foi atraído pela possibilidade de trabalhar “num ambiente muito agressivo e de alta velocidade” que julgava difícil encontrar na Europa. Um profissional de recursos humanos de 26 anos nascido e educado na Bulgária, Ivanov agora está se mudando para a Suíça, onde, como analista sênior de RH da Vale, vai ajudar a companhia a promover sua marca entre possíveis contratados. Ivanov diz ter encontrado no Rio um ambiente de trabalho em que “as pessoas estão abertas a novas idéias”. Como trainee, “podia falar diretamente com o diretor-presidente Roger Agnelli, o que não imagino acontecendo, digamos, na Alemanha ou no Reino Unido”.

Em geral, a Vale, que divulgou lucro de US$ 17,26 bilhões em 2010, está investindo cerca de US$ 100 milhões em seus programas de treinamento global em 2011, cerca de “30% a 50%” mais do que no ano passado, diz Siani.

Pode valer a pena, já que no setor de mineração os diretores de projeto estão em alta demanda e é difícil de preencher os cargos, especialmente para empresas menos proeminentes, diz John Byrne, diretor de pesquisa de executivos da firma de recrutamento americana Boyden Global Executive Search no Chile.

Em geral, diz Byrne, diretor de projeto é um cargo de US$ 350.000 a US$ 400.000 por ano na América Latina, comparado com USS 300.000 a US$ 350.000 um ano atrás. Dessa estimativa, 30% representa bônus, e opções de ações não estão incluídas, diz ele. Essa variação, diz Byrne, mais que compensa a alta do custo de vida na região.

Byrne acrescenta que os bancos também estão tendo dificuldade para preencher posições de destaque. A Boyden Chile está procurando um vice-presidente de planejamento e controle para um banco local há mais de seis meses, diz ele. “Encontramos alguns possíveis candidatos”, diz, mas outros bancos também fizeram ofertas e eles não acertaram com o cliente de Byrne.

Gerentes de investimento para clientes ricos de bancos agora podem esperar uma oferta de salário 40% mais alta para ir trabalhar num concorrente do mesmo porte em mercados como México, Chile, Brasil e Colômbia, diz Manuel Corsino, um recrutador da Boyden para a América Latina baseado na Flórida e especializado no setor financeiro. Isso se compara a 10% a 20% nos EUA, diz ele. O custo de preservar esses profissionais também está subindo, com bônus de retenção dado a recém-contratados sob o compromisso de ficarem um certo número de anos no emprego em alta de 300%, diz Corsino.

Mas nem todo mundo está reclamando. O diretor de recursos humanos do Citigroup Inc. para a América Latina, José Marti, disse num e-mail que “o Citi não tem experimentado nenhuma dificuldade recentemente em preencher posições de alto nível na América Latina”. Contudo, Marti admitiu que “o Brasil tem apresentado desafios diferentes”, com “uma oferta limitada de talentos de alto nível” que está elevando os níveis de remuneração, disse.

Na verdade, as economias mais aquecidas da região estão absorvendo quase toda a mão de obra disponível, não apenas a qualificada, com o Brasil registrando um desemprego de 6,1% em janeiro que, embora mais alto que o de dezembro, foi o menor para o mês desde 2003, segundo o IBGE. A renda média no país foi de R$ 1.538,30,5,3% mais alta do que um ano antes. Uma escassez de mão de obra qualificada tem sido observada em várias indústrias no país todo.

No topo da pirâmide corporativa, o salário médio de um diretor-presidente ou equivalente no Brasil subiu 19% entre janeiro de 2009 e janeiro de 2011, para R$ 50.266 por mês, segundo dados da pesquisa trimestral da Catho Online, que ela informa ter ouvido 140.000 pesquisados.

Silvestri, da Rio Bravo, diz que o impacto da escassez de diretores vai além dos custos trabalhistas. “Eu já tive de atrasar alguns projetos” em empresas que a Rio Bravo controla devido à falta de gerentes, diz, sem dar detalhes. Agora sua firma está investindo em treinamento interno, recrutando profissionais jovens e tentando ensinar-lhes novas habilidades.

Por Ilan Brat

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