CEO da Catho fala sobre sua trajetória profissional – Estadão

Claus VieiraAos 45 anos, Claus Vieira comanda há um ano a empresa de seleção e de anúncios de empregos Catho, que é controlada pelas multinacionais Seek e Tiger e deve faturar R$ 220 milhões até o término do seu ano fiscal, no dia 30 de julho. Embora tenha uma trajetória de sucesso iniciada precocemente – entrou na faculdade de engenharia aos 16 anos –, Vieira diz que, se pudesse voltar no tempo, tomaria atitudes diferentes, como ir mais devagar no seu trajeto. E admite que persegue um equilíbrio ainda mais afinado entre vida profissional e pessoal. Depois da engenharia, fez pós-graduação em administração na Fundação Getúlio Vargas e um MBA na Inglaterra. Trabalhou no grupo Saint Gobain, na Multinacanal, que era então a principal empresa de TV a cabo, na Nextel, no UOL e na Tecnoban. Posteriormente, passou a se dedicar a tocar empresas sob mandato obtido dos controladores, até que, em 2012, voltou a ser um CEO tradicional, como diz, assumindo a Catho. A seguir, trechos da entrevista.

Você é mais um engenheiro que foi para a administração?

Na verdade, entrei muito cedo na Poli (Escola Politécnica da USP), com 16 anos, e me formei com 20, por uma grande influência do meu pai, que é engenheiro civil, politécnico, deu aulas na Poli. Mas ao longo do curso eu não me identifiquei, não achei que eu tivesse dom para ser engenheiro. Meu pai me aconselhou a terminar a faculdade, porque ela me daria uma visão de projeto, um raciocínio de projeto, que iria aplicar numa eventual carreira de administração. Terminei o curso e resolvi me inscrever num programa de trainee. Escolhi o programa da Saint Gobain, porque era o primeiro que eles tinham.

Chegando lá, você já foi para a área administrativa?
Corri a empresa inteira por um ano e meio. Era um curso de formação de gerentes, e o meu primeiro cargo foi o de gerente administrativo na Santa Marina, uma das empresas do grupo. Foi um cargo bacana. Fiquei cinco anos e meio no grupo. A Saint Gobain me propiciou fazer o meu mestrado lá fora, um MBA numa escola da Inglaterra, e, quando retornei, o pessoal da GP Investments estava contratando jovens MBAs voltando das melhores escolas dos EUA e Inglaterra. Eles me fizeram uma proposta para trabalhar numa empresa que era nova, um negócio novo no Brasil, na época, que era o negócio de TV a cabo, e eles tinham um terço do capital da Multicanal, que era, então, a maior empresa do setor.

Em que ano você foi para essa empresa?
Acho que eu fiquei lá em 1996, 97, 98, por aí. E aí eu recebi uma proposta muito boa da Nextel, para ser diretor comercial. Eu lembro que eu deveria ter 30 anos, era uma função bem importante na época. No cargo, percebi que não havia me identificado em ser um executivo funcional.

Por quê?
Eu precisava ter o controle de todas as partes da empresa para exercer o meu conhecimento, a minha liderança. O diretor comercial precisava do de operações para entregar, do financeiro para aprovar, e eu percebi que aquilo não me realizava. E aí surgiu a oportunidade de eu ir para o UOL. Passei cinco anos e meio lá e, nos dois últimos, fui diretor geral, e tive funções generalistas. Ali, então, eu me enxerguei, em termos do que eu gosto de fazer. Eu sou feliz onde eu possa pegar a cadeia de valor inteira, começo, meio e fim, desde a venda até a entrega, passando por todas as partes da empresa, ter essa visão do todo, poder gerenciar o negócio como um todo.

Acha que, agindo assim, pode deixar sua marca?
Eu realmente acho que eu sou um bom executivo generalista, tenho uma boa visão estratégica, eu consigo enxergar o mercado, players, consigo determinar com uma facilidade a estratégia, transformar isso num plano de negócios atraente ou agressivo ou bastante ousado. E acho que sou bom para executar, entregar esse plano de negócios, liderar pessoas. Também sou bastante mão na massa, de tocar o dia a dia – eu acho que tenho esse dom de ser um generalista. E não me enxerguei, não me realizei profissionalmente quando eu tive uma função funcional. Depois do UOL, fui para a Tecban, acho que também fiz um trabalho bastante bacana lá. Em seguida, passei quatro anos me dedicando a fazer projetos com mandatos claros, com começo, meio e fim.

Existe algo que você precisa melhorar na sua vida?
O equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional é algo que eu preciso continuar perseguindo. Eu só fui casar agora no dia 20 de dezembro do ano passado quando eu fiz 45 anos, foi o meu primeiro casamento. Tive algumas oportunidades antes que não se consumaram em casamento justamente por priorizar a vida profissional em detrimento da vida pessoal. E eu venho na busca desse equilíbrio. O meu casamento agora no fim do ano foi simbólico nesse sentido. Essa busca pelo equilíbrio é meu maior desafio.

Ao longo da sua carreira, há algo do qual se arrepende?
Como a Tecban tem um pool de acionistas com diferentes visões, eu saí de lá, modéstia à parte, após ter feito um trabalho extraordinário, um pouco desiludido com o mundo corporativo, que acaba sendo às vezes muito mais político do que você gostaria que fosse. E ali, no final de 2006, eu resolvi fazer um ‘break’. Na época, eu vi os movimentos de pessoas fazendo trabalhos de reestruturação e entendi que já tinha conhecimento acumulado relevante, já tinha um nome no mercado e queria simplesmente vender o meu serviço, o meu talento, o meu dom, em troca de um mandato com carta branca e tendo uma participação clara no resultado. Não queria mais viver esse mundo.

Esse mundo político?
É, esse mundo político, corporativo, diplomático vamos dizer assim. Cansei um pouco disso por volta de 2006 e 2007, 2008, 2009 e 2010 e 2011. Eu decidi que eu iria trabalhar por mandatos, carta branca, vender meu talento e ganhar dinheiro, eu não queria mais estar nesse mundo corporativista. Acho que essas feridas cicatrizaram, o tempo e os cabelos brancos nos fazem ganhar experiência, inteligência emocional, saber lidar com essas situações, e aí eu me senti maduro, bem resolvido com essas situações, e me senti pronto para voltar para esse mundo corporativo, mas em um outro patamar, com essas coisas me afetando menos. Acho que hoje, se eu pudesse voltar no tempo, com a experiência que eu tenho hoje, eu teria tirado de letra várias situações corporativas, que na época, para mim, eram difíceis de lidar. Acho que esse foi o preço de fazer uma carreira muito rápida. Talvez eu tenha me desenvolvido nos aspectos técnicos e executivo mais rapidamente do que no aspecto emocional.

Aproveitando sua experiência, que dica você dá para quem pretende ser executivo?
Não queimar etapas. Muitas pessoas me falam que cada vez mais esse mundo Y, da geração Y, está cada vez mais querendo acelerar, acelerar conhecimento, carreira, promoção, ganhos etc. Então, eu digo para quem está com até dez anos de carreira, que não deveria escolher os empregos que paguem os melhores salários, mas escolher os trabalhos em que possa aprender mais. O primeiro ciclo de dez anos é de aprendizagem, se recebe mais do que se entrega. E passando dos 30 (anos de idade), não queimar etapas, não querer assumir responsabilidades e passos antes da hora. O preço é muito alto, e tudo na vida tem seu tempo. Se pudesse voltar atrás, talvez eu desacelerasse um pouco a velocidade com que eu ascendi na carreira. Não teria perdido nada com isso e teria sido um ser humano mais equilibrado, feliz, pois o preço cobrado por queimar etapas é muito alto.

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