Catho Online no Estadão/SP – 05/07/10

Patrão ou empregado: qual é a sua?

Abrir um negócio próprio pode parecer um sonho, mas nem todo mundo tem vocação para isso.

SÃO PAULO – A maior parte das pessoas já pensou, pelo menos por um momento, em largar o emprego e abrir um negócio. Os especialistas, no entanto, recomendam cautela na tomada deste tipo de decisão. “Pendurar o crachá da empresa parece tentador, mas nem todos estão preparados para encarar esse desafio. O que parece um sonho pode se tornar um pesadelo se a pessoa não tiver o perfil de empreendedor,” diz Sulivan França, presidente da Sociedade Latino Americana de Coaching.

Na opinião dos especialistas ouvidos pelo site ‘Economia & Negócios”, o verdadeiro empreendedor já nasce com essa marca e é facilmente reconhecido. “Está impresso no DNA,” diz o ex-presidente da Ernst & Young, Júlio Sérgio Cardozo. “A pessoa que não tem essa vocação pode até abrir um negócio e ganhar dinheiro, mas isso não a deixará, necessariamente, mais feliz.”

Com mais de 30 anos de experiência no mundo corporativo, Cardozo diz que percebe rapidamente quando está diante de alguém com vocação para tocar um negócio próprio. “São pessoas obstinadas por resultados, que gostam de desafios, têm iniciativa e buscam sempre o sucesso. Geralmente elas usam o fracasso como aprendizado, uma espécie de mola propulsora para se aperfeiçoar.” O executivo, que hoje atua como coach de carreiras, brinca que nunca viu um empreendedor pessimista. “Onde os outros veem barreiras eles veem oportunidades. O empreendedor não tem dúvidas, tem certezas, e trabalha o quanto for preciso para que tudo dê certo.”

Tamanho comprometimento com a vida profissional, que parece natural para os empreendedores, pode ser extremamente desgastante para quem tem outro perfil. O gerente de atendimento da Catho Online, Lucio Tezotto explica: “Ser empresário tem um certo glamour, mas nem todos estão dispostos a pagar um preço alto por isso. É preciso deixar bem claro: quem deixa de ser funcionário para virar patrão acaba trabalhando algumas horas a mais por dia.”

O presidente da fabricante de softwares Totvs, Laércio Cosentino, diz que muitos se enganam ao pensar que o empresário só faz o que quer porque não tem que obedecer ninguém. “Quando você abre um negócio, seu patrão é o cliente,” diz Cosentino, que chama a atenção para ainda a importância de saber liderar uma equipe e construir um bom relacionamento com o cliente. “Quem abre um negócio tem que saber lidar com gente. Apenas ter um bom produto não é suficiente.”

Para Bruna Dias, gerente de orientação de carreira da Companhia de Talentos, o grau de satisfação com a vida aumenta significativamente quando há coerência entre o perfil da pessoa e a atividade que ela desenvolve profissionalmente. “Para muitos, a felicidade não vem do dinheiro e do poder, que são supervalorizados em nossa sociedade, mas sim da qualidade de vida. São profissionais que querem ter tempo para a família e não gostam de levar trabalho para casa, como fazem as pessoas que têm um negócio próprio,” diz a especialista. “Por isso, é muito importante que a pessoa pese os prós e os contras das duas opções antes de fazer uma escolha que pode afetar significativamente sua vida. É preciso, antes de mais nada refletir sobre os próprios valores.”

Bruna Dias lembra que o emprego com carteira assinada traz ainda a vantagem da previsibilidade da remuneração, com direito a férias, 13º salário e outros benefícios. “Isso conta muito para pessoas que não suportam a idéia de enfrentar a variação dos ganhos de um negócio.”

Acostumada a receber jovens em busca de orientação profissional, Bruna diz que é preciso desmistificar a idéia de que só quem tem um negócio próprio ganha dinheiro. “As empresas hoje precisam remunerar bem seus funcionários para não perdê-los para a concorrência. O bom profissional pode até ganhar mais do que um pequeno empresário por conta das políticas de distribuições de bônus, cada vez mais comuns no mundo corporativo.”

Lucio Tezotto, da Catho Online, ressalta que algumas pessoas empreendem por necessidade e não por vocação. “Tem gente que perde o emprego e tem dificuldade de se recolocar no mercado de trabalho. Aí acaba optando por abrir um negócio próprio. Mas é preciso cuidado. Se isso for feito com pressa, sem um estudo de mercado e sem um plano de negócio, as chances de fracasso aumentam.”

O criador do programa de empreendedorismo do Sebrae Fernando Dolabela , acredita que a imensa burocracia na hora de abrir uma empresa e os altos impostos acabam desestimulando quem tem vontade de abrir um negócio no Brasil. Ele aponta também a questão cultural da aversão ao risco como um dos principais fatores que desencorajam iniciativas empreendedoras. “Nossa sociedade não tolera incertezas. Prova disso é que é cada vez maior a procura pelo emprego público no País. O Brasil sai perdendo com isso, muita riqueza deixa de ser gerada.” Para reverter esse comportamento, Dolabela recomenda que os pais estimulem nos filhos a criatividade e a inovação. “É preciso perguntar para a criança qual é o seu sonho e o que ela fará para alcançá-lo,” diz o especialista.

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  1. 7 years ago

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