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As regras secretas dos chefes – Revista NOVA

Ontem a revista NOVA publicou uma matéria sobre os critérios utilizados por gestores para promover ou demitir profissionais em 2010.

A matéria utilizou dados da Pesquisa da Catho Online – A Contratação, a Demissão e a Carreira dos Executivos Brasileiros 2009 e contou com a participação de Camila Mariano, Gerente de Atendimento.

Confira a matéria abaixo:

As regras secretas dos chefes

É duro dizer, mas agora mesmo seu superior pode estar decidindo quem vai demitir ou promover em 2010, conforme uma lista de exigências ocultas, que não está em nenhum papel. NOVA apurou e dá uma pista: tem a ver com tatuagem, piercing, gordura, cigarro e até com classe social.

Aos 27 anos, Carolina* tem seis tatuagens. Já exibiu também dois piercings. O da sobrancelha ela tirou antes mesmo de sair em busca do primeiro emprego. Mas manteve outro no nariz. “Por ser uma bolinha pequena, não vi problema”, conta. Estava enganada. Ao pleitear uma vaga de hostess em um bar e restaurante, ouviu do gerente que, se quisesse o trabalho, precisaria se livrar do adorno. “Não questionei e tirei”, diz.

Sobre as tattoos, Carol não se arrepende de ter feito, embora admita que poderiam ter prejudicado sua vida profissional. “Quando fiquei na recepção de um hotel, por exemplo, contei com a compreensão do meu chefe, que providenciou uniforme de mangas longas para esconder os desenhos.” Hoje, Carolina é produtora de shows e festas e trabalha por conta própria. Ou seja, não precisa mais camuflar nada. Se vai visitar um cliente, no entanto, sente-se melhor cobrindo as tattoos.

Pois a produtora está cheia de razão. “O mundo corporativo é preconceituoso com isso”, reforça o headhunter Gutemberg de Macedo, da Gutemberg Consultores. “Perguntei a 35 executivos o que achavam desses adornos. Todos responderam que não pegam bem.” Veja mais sobre o que o mercado de trabalho realmente pensa de tatuagem, piercing, cigarro, gordura e classe social.

Mas por que uma simples tattoo “não pega bem” se nada tem a ver com competência, talento e outros atributos bem mais importantes para avaliar um profissional? É que, antes de virar moda, o hábito de fazer desenhos no corpo era mais comum em grupos fora da lei, como os mafiosos e os presidiários. “Por muito tempo, a tatuagem era vista como mau exemplo”, pondera Célia Leão, consultora e palestrante de etiqueta empresarial e marketing pessoal. “Ela pode ser vinculada a aspectos como transgressão do corpo, instabilidade e uma necessidade de se diferenciar, como se a pessoa estivesse querendo dizer ‘Meu eu é mais importante do que o grupo, do que a empresa’”, explica a consultora de etiqueta e imagem corporativa Lícia Egger, diretora da Intra Consultoria Empresarial. Com o piercing, acontece o mesmo. Mas essa concepção está mudando aos poucos.

Ninguém está falando para você nunca fazer tatuagem ou pôr piercing. Se morre de vontade, o conselho dos experts é ser esperta para sacar o momento de esconder. Em uma entrevista, quem está do outro lado da mesa pode interpretar como sinônimo de dificuldade para obedecer a hierarquias – aí, adeus, emprego! Por via das dúvidas, é melhor cobrir os desenhos pelo corpo e retirar piercings aparentes. Na opinião de Lícia, um visual neutro aumentará as chances de obter uma percepção positiva dos seus talentos. A estratégia funcionou e o emprego rolou? Mantenha a tática ao menos nos primeiros tempos. “Tudo que foge ao padrão pode assustar”, diz Sergio Monaco, consultor sênior do Hay Group. Para quem acha esse papo todo conservador, ele dá uma boa notícia: “Cada vez mais o que importa é a performance, os resultados que você entrega; então, caminhamos para que o mercado deixe de ser preconceituoso”.

Se a manobra do esconde-mostra contorna a patrulha velada aos fãs de piercing e tatuagem, ela não funciona quando o assunto é cigarro. “Fumar passa a imagem de falta de preocupação com a própria saúde”, diz Lícia. E quem não se cuida acaba adoecendo mais, o que no mundo dos negócios significa prejuízo. O dependente de nicotina também passou a ser visto como alguém sem equilíbrio ou autocontrole – do contrário, já teria largado o hábito. Para completar, ganhou a pecha de funcionário menos produtivo: como não é permitido fumar em ambientes internos, imagina-se que ele precisará escapar do trabalho para saciar o vício. Tudo isso explica o resultado de uma pesquisa com 16 207 executivos, feita no portal de currículos e empregos Catho Online: 83,2% dos presidentes e diretores e 82,1% dos gerentes e supervisores têm objeção à contratação de fumantes.

Os números deixam claro que vivemos mesmo tempos antitabagistas. “Minha chefe sempre me elogiou, falava que eu era uma funcionária exemplar”, conta a publicitária Sofia, 27 anos. “Aí, me viu fumando na porta da empresa e, na hora, disse que eu não podia mesmo ser perfeita.” Pressentindo problemas maiores, Sofia mentiu que havia parado. E nunca mais acendeu um cigarro no trabalho.

Em um processo de seleção, perfis como o de Sofia são automaticamente gongados? “Não conheço ninguém que tenha sido reprovado só por isso”, responde Macedo. “Mas pode ser um critério de desempate”, observa Camila Mariano, gerente de atendimento da Catho.

A estagiária de direito Vanessa Alves, 32 anos, não fuma, tampouco tem tatuagem ou piercing, mas já se sentiu discriminada por outro motivo. Com 1,70 metro, ela chegou a pesar 120 quilos. Mas ainda estava com 95 quando se candidatou a recepcionista em uma construtora. Durante a entrevista, a selecionadora, que anotava sem parar mantendo o papel meio dobrado, precisou sair da sala. “Curiosa, estiquei o pescoço e vi que ela tinha escrito ‘excelente’ em vários itens, além de observações positivas, como ‘fala bem’. Lá embaixo, porém, colocou: ‘Má aparência’. Claro, era por causa do meu peso”, conta Vanessa, acrescentando que estava com uma calça preta reta e camisa elegante. “Eu era uma gordinha que só usava roupas adequadas.” Pois bem, Vanessa hoje pesa 60 quilos, graças à cirurgia de redução do estômago. E diz que, depois de emagrecer, sua vida (inclusive profissional) mudou para melhor.

De fato, a pesquisa da Catho mostrou que 68,6% dos presidentes e diretores e 59,3% dos gerentes e supervisores consultados têm objeção a contratar obesos. “É mais uma questão de saúde, pois esse grupo tem propensão a várias doenças”, diz Camila. “Só que em alguns casos pode ser uma questão de estética.” O consultor Macedo é mais enfático: “Aparência conta, não há como negar, principalmente em postos do pelotão da frente”. Em outras palavras, se a vaga for para uma função que implica lidar com clientes e fornecedores, representar a empresa do lado de fora, essa exigência será alta.

“Infelizmente, existe preconceito com os gordos. É dito que são menos ágeis e que não têm autocontrole”, observa Célia. Então, consultores, o melhor é desistir de procurar emprego enquanto não perder aqueles quilos extras? Nada disso. “Arrase na entrevista de emprego, mostrando humor, português impecável, cultura geral, inteligência, conhecimentos específicos para sua área, dinamismo. Assim, vai tornar irrelevante a questão do peso com sua performance”, aconselha Célia.

“No meu trabalho, todos são de uma classe social acima da minha: muitos viajaram para fora e cursaram faculdades de primeira linha”, diz a promotora de vendas Rosângela Lopes, 29 anos. “Sou formada também, mas não numa dessas. Tenho meus momentos de insegurança, mas amo o que faço e sou apaixonada pela empresa. Graças a isso, mantenho a motivação para me destacar e chegar aonde quero.” O depoimento de Rosângela faz a gente pensar: será que a origem social decide quem vai ser promovido ou contratado? “O que conta não é tanto de onde a pessoa vem, mas como age em relação à sua origem. Quem se coloca na posição de vítima acaba se autossabotando”, avisa Macedo, ele mesmo filho de um carvoeiro.

Para quem não teve a sorte de nascer em uma família abastada – nem de poder estudar nas melhores escolas, frequentar teatros…. -, todos os especialistas aconselham: em vez de se acomodar nas dificuldades, corra atrás de tudo aquilo que não caiu do céu. Por exemplo, se fazer um curso de inglês sempre foi impossível, vale pedir ajuda àquela amiga que domina a língua. Parece sonho pagar uma especialização? Descubra esquemas de bolsas de estudo. Nunca saiu do Brasil? Conheça outros países pela internet. Se você teme ir a eventos da empresa por arranhar nas regras de etiqueta, aprenda com os sites, revistas, tevê. “O que o mercado pede é competência social, algo que tem a ver com saber conversar. Hoje, há tanta informação disponível que não tem desculpa para não aumentar seus conhecimentos”, diz Lícia.

Dessa forma, será possível inverter o jogo. E mais: atualmente, já se veem empresas diminuindo a exigência sobre a origem escolar por perceber que estava excluindo muita gente boa. Com a flexibilidade, a inteligência emocional, a disposição e o tão desejado brilho nos olhos que aqueles que enfrentaram várias dificuldades, se esforçaram e fizeram conquistas costumam transparecer.

Leia a matéria no site da NOVA aqui.

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