por Fernão Silveira
Tudo bem que já faz alguns dias, mas acho que muitos de nós ainda estamos com o jogo Brasil 0 x 0 Argentina (realizado na última quarta-feira, dia 18/6, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010) na cabeça. Pois eu queria fazer alguns comentários a respeito…
Fique sossegado, caro(a) leitor(a), que eu não vou comentar o jogo em si. E nem vou falar de futebol, em si – também não vou engrossar o coro de cornetas que pede a cabeça do técnico Dunga (nem vou opinar sobre isso, embora tenha uma opinião muito clara…).
Chamou-me a atenção um lance especÃfico daquele duelo: a jogada em que o atacante Robinho, num lampejo de genialidade, escapou pelas costas da defesa argentina, driblou um atabalhoado goleiro (mais uma saÃda estúpida de Abbondanzieri, por sinal!) e não transformou esta excelente oportunidade em gol porque foi individualista demais (fominha!, como diriam os boleiros).
Naquele momento, Robinho tinha três opções: 1 (a mais fácil e eficiente) – cair no chão quando teve a camisa ostensivamente puxada pelo “Pato†Abbondanzieri dentro da área e simplesmente sofrer pênalti; 2 (não tão fácil, mas provavelmente eficiente) – tentar dar o passe para que um colega melhor posicionado (o atacante Adriano, no caso) fizesse o gol; 3 (certamente a pior opção, justamente a escolhida por ele) – seguir sozinho com uma jogada extremamente complicada para tentar fazer um “gol de placa†e virar herói do Brasil x Argentina.
Tudo bem que uma partida de futebol é muito dinâmica e as decisões são tomadas em frações de segundos pelos atletas - na maioria das vezes, sem muito raciocÃnio e com muito instinto (quem não se lembra da reveladora confissão do atacante Mirandinha, ex-Corinthians: “Não consigo correr e pensar ao mesmo tempo!â€). Tudo bem que Robinho tem, sim, habilidade para driblar um time inteiro e fazer um golaço… Mas acho que o caso daquele Brasil x Argentina exemplifica bem um dilema que não raro nos surpreende no universo corporativo.
Robinho, claramente, decidiu pelo individual. É evidente que ele sentiu que o goleiro argentino, ao ser driblado, havia puxado a sua camisa dentro da área (o que resultaria em pênalti – talvez a ser cobrado por outro jogador). Também aposto que ele viu Adriano em melhor posição dentro da pequena área, à espera de um passe. Mas, ainda assim, optou pelo mais difÃcil, que resultaria num gol inesquecÃvel. Pena que não aconteceu.
O fato é que todo o esforço de Robinho naquela jogada de nada adiantou. O lance seguiu, o árbitro (acertadamente) não deu pênalti e Robinho acabou desarmado, enquanto Adriano esbravejava, pronto para fazer o gol. E o jogo acabou em 0 a 0.
Como dizem os portugueses, o lance de Robinho é aquele que separa a besta do bestial. Como deu errado, ficamos na primeira opção. Se desse certo, estarÃamos até hoje comemorando a jogada bestial do atacante brasileiro. Pressionado, em fração de segundos, Robinho tomou a sua decisão – manteve a fé em seu taco e optou por tentar resolver tudo sozinho. Mas acabou privando o Brasil, a sua equipe, de uma boa possibilidade de vitória.
Pense bem: isso certamente já aconteceu no seu ambiente de trabalho…
Acho que a lição final – pelo menos isso ficou muito forte para mim – é sobre as implicações do trabalho de um fora-de-série em detrimento do restante da equipe. Se Robinho decidisse, o mérito seria todo dele. Como ele falhou, todos foram pichados. Será que isso é justo? Talvez não, mas esse é um dos ossos do ofÃcio de trabalhar em grupo.
Se pudermos aplicar esse ensinamento para a vida, daria o seguinte conselho: quando estiver com uma excelente oportunidade nas mãos (ou aos seus pés) e souber que não dará conta sozinho, peça ajuda, “passe a bola” ao companheiro melhor posicionado. Assim, provavelmente a equipe inteira sairá vencedora.
E Robinho, por favor, caia no próximo pênalti que sofrer contra a Argentina…
Fernão Silveira | 23 de Junho de 2008, 14h58
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