por Fernão Silveira
Antes de contar a historinha, vamos à moral dela: jamais renegue o seu talento e dedique-se, com afinco e fé, ao desenvolvimento de suas habilidades e seus amores. Não há caminho mais fácil e certo para o sucesso.
Agora, a história…
Astor Piazzolla (1921-1992) é o maior nome do tango moderno e um dos mais brilhantes músicos que a América Latina conheceu no Século XX.
Músico completo, porém célebre por seu caso de amor com o bandonéon (instrumento semelhante ao acordeão brasileiro), Piazzolla é o criador do “Tango Nuevo” (Tango Novo), que representou uma modernização do mais famoso gênero musical da Argentina.
Mas, como todo visionário, Piazzolla custou a ser compreendido e reconhecido por seus pares. Nas décadas de 1940 e 1950, enquanto ele construÃa a revolução do “Tango Nuevo”, foi muito criticado pelos puritanos do estilo por modernizar a música tÃpica argentina, aproximando-a do jazz. “O que ele faz não é tango”, metralhavam seus crÃticos.
Seu patrão na época, o lendário maestro AnÃbal “El Pichuco” Troilo (outro gênio do tango), obrigava-o a “pegar leve” nos solos de bandoneón, pois suas extravagâncias musicais estavam espantando os dançarinos das pistas.Â
Mas Piazzolla era um músico brilhante. Em 1954, ele venceu um concurso musical promovido pelo governo francês e ganhou uma bolsa de estudos, em Paris, com a mais famosa pedagoga musical da época, a professora e maestrina Nadia Boulanger.
Em Paris, diante da célebre professora, um desiludido e criticado Piazzolla fez de tudo para esconder seu “passado tangueiro”, dedicando-se apenas à música clássica – ele também compunha peças para orquestras. Até o dia em que ele apresentou para a professora seu tango “Triunfal”.
Nadia Boulanger, mostrando por que era a principal pedagoga musical de sua época, deu a seguinte recomendação após ouvir uma das obras-primas de seu novo aluno: “Astor, suas obras eruditas são bem escritas, mas aqui [no tango] está o verdadeiro Piazzolla. Não o abandone nunca!”
E a história mostrou que Nadia Boulanger tinha razão…
Para concluir: quantos de nós, diante das crÃticas e dificuldades, não caÃmos na tentação de fraquejar e abandonar sonhos ou renegar talentos? Quantos de nós não desistem de seus “tangos” no meio do caminho por causa das adversidades que a vida nos impõe?
Cada um tem o seu “tango”. Lute o quanto puder para preservá-lo.
Fernão Silveira | 18 de Fevereiro de 2008, 10h31 | Nenhum comentário »