por Leonardo Dias
As horas demoram a passar quando o coração bate sem pressa. É o que
sentia Gustavo logo após o almoço de uma sexta-feira. Queria ir embora,
mas as horas não passavam.
Muita gente quer ir embora depois do almoço numa sexta-feira. A grande
carga de peso da semana toda parece que cai sobre a gente nesse dia.
Sentimo-nos cansados, ainda que estejamos motivados. O corpo clama por
descanso e prazer, para tirar proveito da vida. No entanto temos de
ficar até o fim do expediente.
Após o trabalho, Gustavo talvez encontrasse os colegas para uma rodada
de cerveja e conversa. Ou talvez simplesmente fosse para casa assistir
televisão no sofá. Ainda não sabia o que fazer. Foi quando Léia, a
secretária do diretor, chamou-o para a sala dele.
Imaginava que o diretor sequer estivesse na empresa naquele dia. Mas
para a sua surpresa ele estava. Quando Gustavo entrou na sala dele, ele
tratou de ir logo dizendo a verdade.
– O seu trabalho é muito ruim, e nós não o queremos mais por aqui.
Aí o coração de Gustavo acelerou. Todo o seu sono e cansaço
transformou-se em adrenalina. As pupilas dilataram e parecia que os
olhos iriam sair de suas órbitas ao ouvir aquilo tão diretamente.
– Não gosto de você, não gosto de saber que você está quase dormindo na
mesa depois do almoço, não gosto do jeito que você está me olhando
agora. Mas eu não gostar de você não é o motivo que está me fazendo te
mandar para a rua.
Gustavo engoliu seco.
– Vamos te mandar para a rua porque você tem muito talento para isso.
Você está triste aqui no escritório e sinto que está desmotivado.
Portanto, vamos dar um carro para você fazer um trabalho externo. Você
irá visitar clientes, ser um consultor sênior, e ganhar muito mais por
isso. Você vai vender e vai fazer projetos. Eu não gosto de você, mas
toda a diretoria quer isso e ficou incumbido a mim fazer isso. Você aceita?
– Claro!
– Ótimo, então comece na semana que vem.
Gustavo saiu da sala atordoado. Descobriu duas coisas: uma é que o
diretor, principal gestor da empresa, não gosta dele, o que não era bom.
Mas que, mesmo assim, confiava nele, o que era bom. Agora ele só
precisava ir para a rua e fazer de forma com que o diretor passasse a
admirar o seu trabalho. Essa era a parte mais difícil. Mas quem não está
disposto a arriscar?
Naquela sexta-feira, Gustavo nem foi beber com os colegas, nem foi para
casa assistir televisão. Simplesmente trabalhou até um pouco mais tarde.
Com o coração acelerado, não percebeu que já tinha até dado a hora de
ir para casa.
Leonardo Dias | 23 de Novembro de 2007, 17h40 | 1 Comentário »