por Leonardo Dias
A roda de massa coberta de iguarias é de origem italiana, mas é no Brasil que ela mostra os seus temperos mais picantes. Aqui as crises passam como as águas turbulentas de um rio que sempre chega ao mar, onde desaparecerá no sal e na areia. Mas precisa ser sempre assim?
A resposta é não. Hoje, três dias após o acidente trágico com o airbus da TAM, diversos profissionais de todo o Brasil temem voar. São dois acidentes grandes envolvendo aviões em menos de um ano. Algo que, mesmo para os profissionais da aviação, é assustador.
E como essa crise é trágica, as crises anteriores foram retiradas do nosso inconsciente coletivo. Não se fala mais no presidente do senado, ou mesmo dos resultados da CPI do Apagão Aéreo. Tampouco se comentou sobre as acusações de superfaturamento do Pan-Americano. Em vez disso, falamos do trágico acidente que, certamente, mudará para sempre a nossa forma de pensar.
Mudará porque a tragédia era iminente, portanto poderia ser evitada. Mas da mesma forma que o incêndio produzido pelo desastre exigiu que muita água fosse usada para apagá-lo, um verdadeiro dilúvio de mudanças deve ocorrer no setor. E com elas, virão também um grande número de mudanças no sentimento e na consciência da população brasileira que, espera-se, perderá de vez a ingenuidade e ganhará uma extensa memória para lembrar dos fatos.
É necessário rediscutir o Brasil. Sabemos que há excelentes profissionais, grandes pesquisadores e vistosos intelectuais em nosso paÃs que adorariam repensá-lo. No entanto essas pessoas hoje não são os nossos comandantes. No vôo que fazem não há reverso, porque há tempos que não saem do chão. E a tripulação hoje está disposta a servir pizza mais uma vez. No entanto o brasileiro, como passageiro desse avião, não poderá sujeitar-se a esse menu injusto e imperfeito. Nesse momento é melhor que respeitemos o luto e que façamos uma greve de fome. Além, é claro, de impor a mesma fome aos comandantes e tripulantes. Para eles, nem pizza, nem nada. Só o silêncio.
Leonardo Dias | 20 de Julho de 2007, 15h55 | 2 Comentários »